Arrependi-me mal acabei de indicar este tema para a edição de hoje... É que sendo um assunto realmente importante, com abordagens a relações internacionais, públicas e privadas, equilíbrio geo-estratégico, globalidade dos efeitos da poluição, correria o sério risco de se tornar interessante, o que neste blog é simplesmente inaceitável.
Mas bem vistas as coisas, não deixa de ser verdade que o tema já teve melhores dias. Actualmente, com as novas tecnologias, as guerras são declaradas por e-mail, as execuções são gravadas em telemóvel e a Internet presta um serviço exemplar na divulgação dos mais escabrosos movimentos terroristas. Deixou de ser novidade, deixou de ter piada. Que nostalgia do tempo em que os embaixadores eram também mensageiros da desgraça, e saíam sem cabeça do castelo inimigo...
Já no âmbito das relações privadas (leia-se íntimas), também ninguém quer saber se o ou a parceira é do Norte ou do Sul, de Leste ou ocidental. Aqui, a norma é como a bandeira do CDS: o buraco tem que ser ao centro!
Por isso, e como acho que o último tema – Educação – foi abordado de forma muito leviana, volto para vos contar uma historieta verdadeira.
Estava eu no meu terceiro ano do Liceu (era assim que se chamava o actual sétimo ano no tempo da pedra lascada), finais dos anos sessenta do século passado (puta que pariu, estou mesmo velho...), e frequentava o único estabelecimento de ensino disponível na minha terra, Castanheira de Pera, que era privado.
Aqui os professores eram recrutados entre os quadros locais: padres, professores primários, gerentes bancários, farmacêutica... só para as cadeiras que não conseguiam ser preenchidas pela intelectualidade municipal é que vinham professores de fora. Apesar deste panorama a qualidade do ensino era aceitável e aferida pelos exames nacionais, que os alunos tinham sempre de cumprir, por se tratar de ensino privado. Penso que se houvesse um "ranking" na altura, o meu colégio ficaria por certo no "top ten" nacional (modéstia à parte, é verdade!).
Um desses professores era o prof. Eduardo, recém-chegado da guerra da Guiné, carregadinho de stress pós traumático, e que dava aulas de Física e Química.
Numa turma há sempre um puto armado aos cágados, e nesse dia eu estava para aí virado. Falava o professor dos movimentos de translação e rotação da Terra. Foi quando eu interrompi:
- Sr. professor: eu sei que o movimento de translação é provocado pela força de atracção gravitacional do Sol sobre a Terra. Mas porque é que a Terra gira sobre o seu eixo?
Eduardo corou na zona das bochechas que não estavam cobertas pela barba de missionário, ao mesmo tempo que lutava com duas forças dentro de si. Uma era a força da enorme ignorância sobre a resposta a dar. A outra era a vontade de dar um estalo àquele puto impertinente. Conteve-se, e após longos segundos de aparente meditação, ditou:
- Ó meu filho, porque Deus é muito grande!
Querem criancinhas educadas? Não as deixem abusar dos profs!
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